COM SEU VOTO, VOCÊ LEGITIMOU "PENDURICALHOS" QUE HOJE CRITICA. FREUD EXPLICA!



Por Noelia Brito, editora do Blog

Não é de hoje que os chamados "penduricalhos" que "turbinam" os vencimentos de parlamentares e membros do Judiciário e do Ministério Público existem e são questionados sobre sua legalidade, moralidade e justiça, dentre outros elementos que incluem comparativos com o que se paga a outras categorias, principalmente a professores.

Entretanto, somente agora, com a atenção da grande mídia voltada para esses "penduricalhos" de luxo é que o debate, que era frio, quase gelado, passou a acalorado, a ponto de ocupar o interesse das massas.

Alguns membros do Judiciário e do Ministério Público, não todos, não têm lá muito apreço pelo que pensa a opinião pública porque acreditam que dela não precisam para desempenhar seu trabalho ou para conquistar benefícios contra os quais, em geral, a opinião pública se opõe. Acham-se dotados de um certo merecimento por terem estudado temas que são dominados apenas por eles e passado em concursos, mas, principalmente, por tomarem decisões difíceis e integrarem uma casta minoritária que detém um  poder, que estes creem, quase absoluto, sobre os destinos dos demais. Esses "atributos" seriam suficientes para justificar até pagamentos de vantagens que esses profissionais reputariam de inconstitucionais ou imorais não fossem eles mesmos os respectivos beneficiários. Mas sem o apoio da opinião pública será que certas atividades desses agentes públicos teriam seguido adiante ou teriam sido dragadas pelo próprio Sistema? Provocada, a opinião pública tanto ergue quanto derruba mitos. Nunca é prudente menosprezá-la, muito menos menosprezar o poder daqueles que têm a capacidade de atiçá-la.

Parlamentares, por sua vez, menosprezam a opinião pública por acreditarem, com certa razão, conforme veremos mais à frente, que pagando marqueteiros "a peso de ouro" e comprando votos, facilmente podem manipular o que o povo pensa, às vésperas das eleições, de modo que o que a opinião pública pensa entre uma eleição e outra, é, para eles, irrelevante. No Executivo não é diferente, daí porque preferem atender aos interesses corporativistas dos membros do Ministério Público e do Judiciário ou deles mesmos, do que atender aos clamores desses eleitores que teoricamente representam. A equação é simples, embora não pareça: com uma canetada, um membro do Judiciário, combinado com outro do Ministério Público pode afastar um prefeito, um parlamentar ou mesmo impedir um cidadão de disputar uma eleição, ainda que essa não seja a vontade de milhares ou milhões de eleitores. O poder de um ou de dois ou de três se sobrepõe, então, ao de milhares ou milhões. Na teoria do Estado, grosso modo, dar-se-ia a isso o nome de Aristocracia, que é o governo dos "melhores", da elite, das castas intelectuais que sabem o que é melhor para a "massa ignara". Então, entre uma eleição e outra, melhor atender aos chamados da "aristocracia", pois com a democracia o acerto de contas se dará somente às vésperas das eleições.

Mas e onde entra o povo nisso tudo?

Ah, mas não esqueçamos jamais que nossa democracia é do tipo representativa, ou seja, exercida por meio de representantes, de parlamentares e não de forma direta. Via de regra, portanto, a oportunidade que o povo tem para interferir em todo esse processo é quando vota e elege seu representante. Depois disso, o povo deixa de ser ouvido, o que somente voltará a ocorrer dali a dois anos, nas próximas eleições. Esse fato é de fácil constatação. Para tanto, façamos um exercício simples respondendo aos seguintes questionamentos: Quantas vezes algum parlamentar lhe perguntou como deveria votar em determinada matéria ou em determinada sabatina, para a escolha de um ministro ou membro de um Conselho ou de uma Agência Reguladora? Aquele parlamentar no qual você vem depositando seu voto lhe perguntou alguma vez sobre isso? Do mesmo modo, aquele vereador, deputado ou senador que recebe auxílios "isso, aquilo e aquilo outro", ou seja, as chamadas verbas indenizatórias, contra as quais você se manifesta com tanta fúria nas Redes Sociais, vereador, deputado e senador, aliás, no qual você votou, já lhe perguntou sua opinião sobre se deveria receber tais verbas, sobre as quais não pagam qualquer imposto ou contribuição? Mas, afinal, quantas vezes você questionou seu representante sobre esse recebimento? Você não acha que deveria ter sido consultado sobre todos os temas relevantes sobre os quais seu representante votou em seu nome? Você não acha que deveria ter questionado os posicionamentos do candidato no qual você votou sobre qual seria o posicionamento dele com relação às matérias que você acha relevante? Por certo que nenhum desses cuidados você tomou, pelo que seu representante, espertamente, pois na Política o mais tolo consegue dar "nó em pingo d'água", entendeu que recebeu de você verdadeiro "cheque em branco" para preenchê-lo conforme de convier e tem preenchido a seu talante, não duvide!

Mas o que leva o eleitor a ficar tão míope, tão iludido, tão descuidado justamente no momento em que deveria estar mais atento? Por que será que quando chegam as eleições, os eleitores se transformam em torcidas organizadas ou em adolescentes enamorados por candidatos que se empenham na conquista, custe o que custar, como o mais promíscuo e encantador dos "Dom Juan"?

Um amigo publicitário dos melhores no mercado, outro dia me dizia o seguinte: "Noelia, o povo é emocional passional, se apaixona. Toda a conversa do marketing político é apenas uma cantada. Só e só." Será isso mesmo? A relação entre o povo e seus representantes não é mais que o resultado de uma "cantada" bem dada? 

Não se surpreendam com o que eu vou dizer, mas o que o meu amigo publicitário me ensinava sobre a "arte" ou "ciência" do marketing político casa, à perfeição, com uma conversa que tive, outro dia, com meu analista justamente sobre esses encantamentos do povo por pessoas que eu sabia e sei serem uma fraude. Essa verdadeira cegueira eleitoral tem me impressionado bastante e me instigado a buscar o porquê de pessoas de todos os níveis sociais e intelectuais caírem em "cantadas eleitorais" reiteradas e incansáveis vezes. Ele, o terapeuta, naquela sessão me indicou a leitura de um texto de Freud sobre "Psicologia das Massas". Ao ler o texto que está inserido do Volume 15, de suas "Obras Completas", percebi que, na verdade, o texto de Freud faz referência às ideias de outro autor sobre o tema, o psicólogo francês Le Bon, que, por sua vez, explica como "a massa" está sujeita ao poder verdadeiramente mágico das palavras. Diz Le Bon, citado por Freud: "A razão e os argumentos não sabem lutar contra certas palavras e certas fórmulas. Proferidas com solenidade diante da massa, imediatamente os rostos se tornam respeitosos e as cabeças se inclinam. Muitos as consideram forças da natureza, poderes sobrenaturais."

Tanto Freud quanto Le Bon, entretanto, convergem ao concluir que "as massas nunca tiveram a sede da verdade. Requerem ilusões, às quais não podem renunciar. Nelas o irreal tem primazia sobre o real, o que não é verdadeiro as influencia quase tão fortemente quanto o verdadeiro. Elas têm a visível tendência de não fazerem distinção entre os dois."

Eu poderia evitar de fazer citações literais e apenas dizer com minhas palavras o que Freud e Le Bon concluíram de seus estudos sobre a Psicologia das Massas. Por certo que isso tornaria o texto bem menos cansativo. Porém, como os próprios autores advertem, a massa adora prestígio e autoridade, de modo que as mesmas ideias ditas com "aspas" ganharão mais credibilidade do que se eu as propagasse sem maior cerimônia. É o que chamam de "prestígio", que, ainda segundo Le Bon, é um espécie de domínio que uma pessoa, uma obra ou uma ideia exercem sobre nós e que paralisa toda a nossa capacidade crítica, enchendo-nos de espanto e respeito. É quase uma hipnose. Mas, cuidado, segundo Le Bon, prestígio vem com o sucesso e vai embora com o fracasso. E é claro que estou longe de ter o prestígio de Freud e de Le Bon.

Nesse ponto, o leitor e a leitora, já cansados, perguntam: E o que Freud tem a ver com os penduricalhos de juízes, promotores e parlamentares?

Tem muito. Freud talvez não explique tudo, mas explica muita coisa. Primeiro porque quando reconheço em mim direitos ou privilégios que não reconheço aos demais por me considerar "diferenciado" em razão de certas características, classe social, raça, credo, nacionalidade, designação sexual, afetividade, pratico aquilo que Freud chamou de "narcisismo das pequenas diferenças". Mas esse não é bem o tema central do que tentamos debater no presente texto. O que queremos é ir além. A existência de privilégios como os representados pelos "penduricalhos" do Judiciário e do Legislativo, aqui tomados apenas como exemplo, só se sustenta em razão da relação que o povo tem com a Política e com aqueles que escolhe para representá-los, pautada numa espécie de enamoramento que embaça sua capacidade de questionar, de ver defeitos e as consequências do seu "mau passo", quando escolhe alguém para representá-lo, deixando-se levar pela emoção e ignorando todos os apelos da razão.

A partir dessa escolha, que é feita sob o domínio da "paixão" provocada seja por artifícios do marketing político, como destaca meu amigo publicitário acima citado, seja pelo prestígio do indivíduo que nos hipnotiza com sua "cantada eleitoral bem dada", é que todo o resto vem de acréscimo.

Como lidar com a manipulação que tem em nossa psique seu maior aliado é que é o grande "X" da questão. 






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