Políticos ligados a milícias entram na mira dos investigadores do assassinato da vereadora Marielle e do motorista Anderson


Ex-sargento do Corpo de Bombeiros da PM do RJ e ex-vereador, Cristiano Girão foi preso dentro da Câmara dos Vereadores e depois condenado sob acusação de chefiar milícias e enriquecer ilicitamente. Cristiano Girão, que está solto, é apontado pela ex-mulher, a funkeira MC Samantha, de ser o mandante do assassinato do marido da funkeira no mesmo dia em que Marielle e Anderson foram assassinados. Pelo menos quatro vereadores do Rio de Janeiro já foram ouvidos pela Polícia por terem recebido visitas do ex-vereador miliciano no dia do assassinato da vereadora Marielle, em seus gabinetes. A foto é do Jornal "O Dia", do RJ. Cristiano Girão gostava de se fantasiar de mafioso no Carnaval. Girão era filiado ao PMN e ligado politicamente ao ex-governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral.

Uma reportagem do site Intercept Brasil, assinada pelo jornalista Sérgio Ramalho, revela que os investigadores responsáveis pelo inquérito que apura o assassinato da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes já teriam localizado o número do celular utilizado pelos assassinos na vereadora no momento do crime.

De posse dessa informação e quebrado o sigilo desse telefone, a força tarefa composta por policiais da Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro, por seis promotores do Ministério Público estadual e juízes do Tribunal de Justiça, cujo objetivo é exatamente agilizar a concessão dos pedidos de quebra de sigilo telefônico e de mensagens de pessoas próximas à vereadora, obteve a quebra de sigilo telefônico e telemático de alguns vereadores da Câmara do Rio de Janeiro no dia do assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes estão sendo investigadas pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil. Com a quebra desses sigilos, a Polícia poderá apurar se houve algum possível contato nas horas próximas à execução, entre os assassinos e esses vereadores conhecidos por suas ligações com as chamadas "milícias" que hoje têm mais poder dentro da criminalidade do Rio de Janeiro do que o próprio tráfico de drogas.

Segundo o Intercept Brasil, ao todo, oito vereadores já foram ouvidos pela polícia, todos, porém, na condição de testemunhas.

As suspeitas quanto ao envolvimento de vereadores do Rio de Janeiro no crime surgiram a partir da revelação de que ex-policiais militares indiciados pela CPI das Milícias, na qual Marielle atuou como assessora parlamentar do deputado estadual do PSOL, Marcelo Freixo, teriam feito visitas a esses vereadores horas antes do assassinato de Marielle.

Na quinta-feira, Jair Barbosa Tavares, o Zico Bacana (PHS), prestou depoimento para explicar o motivo da visita em seu gabinete, no sétimo andar da Câmara, de três homens horas antes do crime – entre eles, um ex-PM indiciado na CPI das Milícias.

Foi também o Intercept Brasil quem revelou, em primeira mão, que integrantes de milícias frequentavam os corredores e gabinetes do Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, às vésperas dos assassinatos e que essas visitas já estavam sendo investigadas pela Polícia Civil. Na semana anterior ao assassinato, ainda segundo o Intercept Brasil, outro miliciano também esteve na Casa: o ex-vereador Cristiano Girão – condenado por chefiar uma milícia na Gardênia Azul, em Jacarepaguá.

Uma coincidência que chama atenção no caso e que não passou desapercebida pelo Intercept Brasil, foi o assassinado, na mesma noite do crime contra Marielle e Anderson, de outro desafeto do miliciano e ex-vereador Cristiano Girão, Marcelo Diotti da Mata, marido da funkeira Samantha Miranda, ex-mulher de Girão. O casal, que já foram vítima de um atentado há noves meses, cuja autoria fora atribuída pela funkeira ao miliciano Girão, foi alvejado por tiros de fuzil no estacionamento de um restaurante na Barra da Tijuca. Marcelo da Mata desta vez não escapou. O empresário levou dois tiros e morreu no local. A mulher conseguiu fugir. Pela segunda vez em depoimento à Divisão de Homicídios, ela voltou a acusar o ex-marido miliciano. Sob intervenção federal, as investigações na DH seguem em sigilo.

Da primeira vez em que foi solto, Girão foi impedido de retornar ao Estado por causa das ameaças que fazia a seus desafetos locais, revela, ainda, o Intercept Brasil. Apesar das suspeitas e das denúncias de ameaças e atentados contra desafetos e da condenação por formação de quadrilha armada e lavagem de dinheiro e de responder uma execução fiscal milionárias por sonegação, na Justiça Federal, Girão segue em liberdade. Estranhamente, Girão não foi localizado pela Justiça Federal para ser citado na execução fiscal desde 8 de novembro do ano passado.

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Logo após o assassinato de Marielle e Anderson, o vereador Zico Bacana, conhecido por suas ligações com milícias não apenas porque seu reduto eleitoral fica no bairro de Guadalupe, que sofre forte influência de paramilitares, mas principalmente por ter sido indiciado na CPI das Milícias, sumiu da Câmara. No dia seguinte, enquanto os corpos da vereadora e de seu motorista eram velados no salão nobre da Casa, o parlamentar comemorava, em outro extremo da cidade, o nascimento de um filho.

O Intercept Brasil levantou que Jair Barbosa Tavares, o Zico Bacana, como é conhecido, é um ex-cabo da Polícia Militar eleito em 2016. Ele foi apontado no relatório da CPI das Milícias como um dos líderes de um grupo criminoso formado por “policiais militares, bombeiros, ex-marginais, vigilantes e civis”.

O grupo, segundo o Intercept Brasil, fazia dinheiro com cobrança por segurança dos moradores e do comércio, gás, sinal de TV a cabo, internet, cópia de chaves, garrafão de água, barraca de vendedores, taxa de 10 % a 50 % na venda de imóveis e taxa para produção de documentação na associação de moradores, onde os chefes se reuniam. Um sistema muito semelhante às máfias globais, sobretudo as italianas.

Para impôr domínio territorial em bairros da Zona Norte do Rio, o grupo praticava ameaças, assaltos, agressões, tortura, expulsão de moradores e assassinatos, usando espingardas, pistolas, metralhadoras e fuzis.

Zico Bacana, que desaparecera da Câmara logo depois do assassinato de Marielle e Anderson, somente retornou à Câmara depois de 20 dias do crime, carregando a certidão de nascimento do filho recém-nascido, para justificar as ausências nas últimas seis sessões. Logo que chegou ao plenário, foi falar com o vereador Tarcísio Motta, líder do PSOL. Na breve conversa, Bacana prestou solidariedade e se explicou dizendo que estava sumido do trabalho por conta da licença-paternidade.

No depoimento prestado nesta quinta como testemunha, Zico Bacana disse que não se lembrava da participação de Marielle na CPI das Milícias nem mantinha muito contato com a vereadora do PSOL.

Marielle vinha denunciando ações da PM, que resultaram em mortes em favelas cariocas. Entre os alvos das críticas, estavam policiais do 41 BPM, de Acari, unidade onde trabalham policiais que já foram homenageados com moções pelo vereador das Zico Bacana.

O ex-PM miliciano Cristiano Girão, que segundo as investigações esteve na Câmara no dia da morte de Marielle e que teria ido ao gabinete de Zico Bacana, no dia 7 de março, também teria estado também, no mesmo dia, na sala do emedebista Chiquinho Brazão, outro vereador que tem forte votação em área de milícia. Em nota, Chico Brazão afirmou que não estava em seu gabinete naquele dia e que o miliciano teria informado na recepção que iria visitar a presidência da Câmara de Vereadores, dirigida pelo vereador Jorge Felippe, do PMDB.

O vereador Chico Brazão é irmão do ex-deputado estadual e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Domingos Brazão, preso pela Polícia Federal na Operação Quinto de Ouro por suspeita de corrupção.

O Intercept Brasil lembra que uma das principais linhas da investigação sugere a participação de milicianos na morte da vereadora. Suspeita reforçada pela forma profissional de atuação dos assassinos: seguiram a vítima; usaram veículos com placas clonadas, além de um abafador de som ao disparar os tiros com uma pistola 9 mm – todos na direção da cabeça de Marielle.

Em entrevista à Globo News, o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, General Richard Nunes, revelou que escutas telefônicas realizadas com autorização da Justiça, no inquérito que investiga as execuções da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, associadas a outras provas do inquérito, que já conta com mais de 300 páginas, já possibilitariam apontar motivações políticas como a principal linha de investigação. Segundo Nunes, o crime teria sido político, motivado pela atuação política da parlamentar e até a posições de futuro a que a vereadora poderia chegar: "Não há dúvida de que a atuação política dela, o que ela representa politicamente, não só o que ela representa no momento, mas até a projeção de futuro do que ela poderia representar, indica que a gente tem que ter um olhar mais acurado nessa direção, então, isso é inegável. Havia outros rumores sobre outros tipos de ligações até de área pessoal, isso aí nós estamos descartando. A área pessoal não tem nada a ver. Outra coisa também que se disse que poderia ser, a questão de relacionamento com assessores, demissões, não foi nada disso. Não houve demissão, o que houve foi remanejamento interno." (Leia em ESCUTAS TELEFÔNICAS INDICAM MOTIVAÇÃO POLÍTICA PARA ASSASSINATO DA VEREADORA MARIELLE FRANCO E DESCARTAM MOTIVAÇÕES PESSOAIS QUE HAVIAM SIDO PROPAGADAS POR "FAKE NEWS", DENTRE OS PROPAGADORES DAS FAKE NEWS ESTAVAM UM DELEGADO DE PERNAMBUCO, UMA DESEMBARGADORA DO RIO E UM DEPUTADO FEDERAL)

As "fake news", propagando mentiras contra Marielle Franco incluíam as falsas acusações difamatórias de que a parlamentar seria "mulher de bandido" e que teria "mudado de facção criminosa" e foram compartilhadas e reproduzidas, por incrível que pareça, por uma desembargadora do Rio de Janeiro, um deputado federal e por um delegado de polícia de Pernambuco, contra os quais já há representações tramitando junto ao Ministério Público, ao CNJ, ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados e à Corregedoria da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco. 

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