Operação Abismo: Lobista distribuiu mais de R$ 4 milhões em propina por meio de laranjas para pagar fraude milionária à Previdência dos servidores do Cabo de Santo Agostinho, revelam mensagens obtidas em celulares apreendidos na Operação Torrentes

Prefeito Lula Cabral, do Cabo, em evento social com o governador Paulo Câmara e o deputado federal eleito João Campos, ambos aliados políticos do prefeito que se encontra recolhido ao Cotel, por determinação do desembargador federal Edilson Pereira Junior, acatando representação da Polícia Federal, em Pernambuco

Conforme nosso Blog já havia antecipado, a Operação Abismo, que levou o prefeito do Cabo de Santo Agostinho, Lula Cabral, do PSB, à prisão por suspeita de corrupção passiva e gestão fraudulenta dos recursos da Previdência dos Servidores do Município, é um desdobramento das Operações Torrentes I e II, que, por sua vez, desbaratou uma organização criminosa especializada em fraudar licitações e em corromper agentes públicos da Casa Militar do Governo estadual de Pernambuco, para desviar recursos que deveriam ter sido destinados às vítimas das enchentes da Mata Sul de Pernambuco.

A partir de perícias realizadas pela Polícia Federal em aparelhos celulares apreendidos na casa do lobista Daniel Pereira da Costa Lucas, a autoridade policial obteve planilha com distribuição de valores, bem como várias referências a ajustes de pagamentos de propina e mensagens com tratativas sobre a participação do prefeito Lula Cabral na fraude que teria causado prejuízos superiores a R$ 92 milhões ao Fundo Previdenciário dos Servidores do Cabo.

De acordo com nossas fontes, o inquérito da Operação Abismo apurou que o advogado e pastor evangélico Daniel Lucas, que já fora preso na Torrentes (Leia em ASSALTANTE DE BANCOS ERA O LOBISTA QUE INTERMEDIAVA CONTRATOS ENTRE EMPRESÁRIOS E GOVERNOS DE PERNAMBUCO E MARANHÃO, REVELA OPERAÇÃO TORRENTES II DA POLÍCIA FEDERAL) e que já chegou a cumprir pena por assaltos a bancos, teria atuado com lobista junto ao prefeito do Cabo, Lula Cabral, do PSB, atualmente preso preventivamente no COTEL, promovendo encontros entre o prefeito e os representantes da empresa Terra Nova Gestão de Recursos, de nomes Anísio Mendes, Gean Iamaque Izidio de Lima e Marco Aurélio Carvalho das Neves, com vistas à transferência de R$ 92.920.000,00 (noventa e dois milhões e novecentos e vinte mil) da Caboprev, que estavam aplicados em investimentos seguros, junto à Caixa Econômica Federal, para "títulos podres" indicados pela Terra Nova e administrados pela Bridge Administradora de Recursos Ltda, empresas sabidamente alvo de várias operações da Polícia Federal por fraudes contra Fundos Previdenciários de diversos municípios do País (Leia em Sócios da Gradual são presos novamente em investigação de suposta fraude em fundo de pensão).

O inquérito apurou que a obtenção da transferência dos recursos aplicados na CEF para os Fundos da Terra Nova/Bridge teriam se dado mediante o pagamento de propina ao prefeito Lula Cabral, em associação com seu genro, André da Câmara Barros Maciel, possivelmente em espécie, muito embora, não se tenha ainda apurado o montante dessa propina, que, de acordo com a Polícia Federal, teria sido oferecida pelo lobista Daniel Lucas e por representantes da Terra Nova. Ainda segundo a Polícia Federal, os gestores da Terra Nova também teriam recebido vantagens indevidas para indicar o investimento fraudulento, o que é vetado por Instrução Normativa da CVM. 

Pelo menos R$ 4.094.000,00 (quatro milhões e noventa e quatro mil reais), pagos a título de propina, teriam sido distribuídos pelo lobista Daniel Lucas para operacionalizar a fraude na Previdência do Cabo. Esses valores foram obtidos, pela PF, em uma Planilha encontrada no celular de Daniel Lucas, durante as buscas e apreensões da Operação Torrentes. Esses recursos teriam origem nos desvios patrocinados pelo Prefeito Lula Cabral na Caboprev.

Para o recebimento das propinas, os investigados teriam se utilizado de interpostas pessoas, os chamados "laranjas".

A Polícia Federal também rastreou pagamentos  a título de "comissões", feitos pela empresa Bittenpar Participações Ltda., emissora de ativos sem lastro nos quais se concentraram os investimentos da Caboprev, aos representantes da Terra Nova e que foram registrados na Planilha encontrada no celular do lobista Daniel Lucas, para quem a Bittenpar chegou a pagar o aluguel de um jatinho para que se deslocasse do Recife para a cidade de Jundiaí, em 06//11/2017, para recebimento de propina "em espécie". Além disso, a mesma Bittenpar pagou R$ 170 mil à Auto Nunes para custear um veículo Chevrolet S10, em nome de Leonardo Leite da Mota e a aquisição de um Jeep Compass para a esposa do próprio Daniel Lucas. As duas aquisições dos veículos se encontram registradas na Planilha de distribuição dos mais de R$ 4 milhões que teriam origem na Caboprev, como pagamento pela fraude na instituição.

Os crimes de corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro teriam sido demonstrados  por meio de conversas resgatadas pela Polícia Federal no celular de Daniel Lucas, realizadas no aplicativo WatsApp, de acordo com o inquérito, com destaque aos trechos em que são imputadas a Lula Cabral que este teria "comprado a ideia" da fraude e  que ainda teria perguntando como os corruptores iriam "resolver a vida dele".

Leonardo Leite da Mota, para quem a Bittenpar teria pago um veículo avaliado em R$ 170 mil, operação confirmada à Polícia Federal pela própria Auto Nunes, ao depor na Polícia Federal assumiu ser funcionário da empresa DTI Soluções Tecnológicas, empresa que mantém contratos de locação de veículos com o Município do Cabo e que pertenceria a Ana Claudia Azevedo Ribeiro, já indiciada por formação de quadrilha e concussão no Inquérito 262/2011, que apurou a formação de caixa dois para a reeleição do então prefeito de Jaboatão dos Guararapes, em 2008. Leonardo Mota teria o mesmo endereço comercial de Daniel Lucas, na Torre A do empresarial Rio Mar Trade Center. Nas mesmas salas do Rio Mar também estaria registrada a empresa Newtwch Soluções, de propriedade da mesma Ana Clúdia Azevedo Ribeiro que aparece como dona da empresa que loca veículos para o Cabo, a DTI Soluções.

Para corroborar os indícios de que a viagem de Daniel Lucas a Jundiaí, em jato fretado pela Bittenpar,  fora para o recebimento de propina em espécie, a autoridade policial, ao representar pela prisão preventiva dele e do prefeito, menciona um diálogo entre Daniel Lucas e Marco Aurélio Carvalho das Neves, representante da Terra Nova, onde Daniel Lucas afirma que o prefeito Lula Cabral estaria tranquilo, depois do "colírio". Além disso, outro diálogo resgatado do celular de Daniel Lucas com o genro de Lula Cabral, André Câmara Barros Maciel, ocorrido logo após a aterrisagem do jatinho fretado pela Bittenpar, já retornando de Jundiaí, na madrugada do dia 07/11/2017, quando André Câmara avisa a Daniel Lucas que já "estava chegando". Na sequência, Daniel Lucas pergunta um número de uma conta para fazer um depósito, conta esta que já teria sido solicitada por duas vezes pelo representante da Terra Nova. Duas horas após esse contato, um novo contato é feito com Marco Aurélio para lhe informar um conta de depósito em nome da advogada Quitéria Kelly Guedes de Lira, conta esta que recebeu R$ 47 mil, que também está registrada no Empresarial Rio Mar Trade Center como vinculada às salas onde ainda estão registrados o escritório de de Daniel Lucas, de Leonardo Mota e de Ana Claudia Azevedo.

As imagens resgatadas do celular de Daniel Lucas mostram a distribuição dos R$ 4 milhões por contas de terceiros, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, o que levou a Polícia Federal a crer que essas contas teriam sido utilizadas para "lavagem" da propina.

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