Operação Rock City: "Grande operador de propinas", presidente da Petropolis se entrega à Polícia Federal. Em Pernambuco, cervejaria já abocanhou mais de R$ 30 milhões em benefícios fiscais, além de terrenos doados pelo Governo


Presidente da Cervejaria Petrópolis, preso ontem pela Lava Jato, em visita a uma das fábricas da Itaipava, situada em itapissuma, acompanhado do governador Paulo Câmara e de sua vice, Luciana Santos 

Alvo da 62ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Rock City, o presidente da Cervejaria Petrópolis, Walter Faria, que se encontrava foragido desde a deflagração da Operação, na semana passada, entregou-se à Polícia Federal na tarde de ontem.

A 62ª fase da Lava-Jato apura o pagamento de propinas disfarçadas de doações de campanha eleitoral realizadas por empresas do Grupo Petrópolis.

O empresário Walter Faria, do Grupo Petrópolis, foi rotulado pela Lava Jato como "grande operador de propina". Faria mantinha controle de 38 empresas offshore distintas com contas bancárias no EFG Bank de Lugano, segundo a força-tarefa do Ministério Público Federal no Paraná.

Segundo o procurador da República Felipe D'Elia Camargo, "as investigações apontam para um esquema milionário de lavagem de dinheiro em que o grupo Petrópolis atuou em favor da Odebrecht na gestão, disponibilização e destinação de valores ilícitos".

De acordo com a Lava-Jato, provas colhidas na investigação mostram que Walter Faria, em troca de dólares recebidos no exterior e de investimentos realizados em suas empresas, "atuou para gerar recursos em espécie para a entrega a agentes corrompidos no Brasil e entregar propina travestida de doação eleitoral no interesse da Odebrecht; e transferir, no exterior, valores ilícitos recebidos em suas contas para agentes públicos beneficiados pelo esquema de corrupção na Petrobras".

Em fevereiro deste ano, Walter Faria acompanhou uma visita do governador de Pernambuco, Paulo Câmara, do PSB e de sua vice, a Luciana  Santos,  do PC do B, a Fábrica da Itaipava, na cidade de Itapissuma, inaugurada em abril de 2015. Na ocasião, Faria fez rasgados elogios a Paulo Câmara:  “Estamos aqui porque o governo nos deu condições e um bom incentivo fiscal. Então, esse apoio é, sim, importante. Eu queria agradecer ao Governo do Estado, a Eduardo Campos, que começou essa parceria, e a Paulo Câmara, que era o secretário da Fazenda, e hoje é governador. Esse incentivo nos ajuda a expandir, a vender mais e, com isso, o estado arrecada mais”, declarou o agora preso Walter Faria.

Tanta gratidão, não é para menos. O terreno para a implantação da Fábrica da Itaipava, ainda em 2012, foi doado pelo Governo de Pernambuco, em uma operação comandada pela Procuradoria Geral do Estado, que cuidou da desapropriação de 17 hectares para integrar o bloco de 40 hectares da unidade de produção. Os outros 23 hectares restantes teriam sido negociados  pelo Grupo Petrópolis diretamente com a Usina São José, proprietária do terreno.


As despesas com os trâmites de liberação da área teriam sido pagos pela Agência de Desenvolvimento de Pernambuco (AD Diper).

Dados divulgados pelo próprio governo de Pernambuco na época da visita, confirmam que apenas durante os anos de 2016 e 2017, o governo Paulo Câmara proporcionou isenção fiscal no valor de R$ 30,2 milhões à empresa de Walter Faria. 

De acordo com os delatores, as obras para a construção das cervejarias seriam moeda de troca para o pagamento de propina a políticos. Em vez de cobrar o custo real da obra, a Odebrecht pediria que o grupo Petrópolis repassasse propina e abateria os pagamentos do valor da obra.




A fábrica da Itaipava, em Pernambuco, já é alvo de um inquérito instaurado pela Polícia Federal a pedido do Ministério Público Federal, no Ceará. O inquérito investiga suspeitas de gestão fraudule ta no Banco do Nordeste,  na concessão de R$ 830 milhões em empréstimos para a Itaipava, destinados à construção das fábricas da cervejaria, sendo uma na Bahia e outra em Pernambuco.

De acordo com o procurador da República Edmac Trigueiro, autor do pedido de abertura de Inquérito, meses depois da assinatura do contrato e da liberação dos recursos, o empresário Walter Faria, preso na Rock City,, teria pedido e obtido, prontamente, a dispensa da Carta-Fiança que servia de garantia da operação em troca de uma garantia hipotecária.



Sobre o esquema, o ex-presidente e herdeiro do grupo, Marcelo Odebrecht, afirmou, também em depoimento ao TSE: "Conheço [o caso] da Itaipava. Ela fazia doação oficial e a gente encontrava uma maneira de reembolsar".

"Eu tinha um problema que não consegui operar os créditos que eu tinha prometido. Não conseguia doar aquilo que tinha acertado. Aí, acho que usou a Itaipava e alguns outros terceiros", disse Marcelo em seu depoimento ao TSE.

O delator da Odebrecht, Benedicto Junior, a Itaioava foi usada como laranja para doar R$ 40 milhões a campanhas eleitorais de 2014, entre doações oficiais e não oficiais, porém.

Os beneficiários eram informados que parte da doação seria feita oficialmente pela construtora e outra parte via um "terceiro""– neste caso, o grupo Petrópolis.

BJ afirmou que a empreiteira gerenciava uma espécie de "conta conjunta" com a cervejaria. Essa "conta", segundo ele, tinha direito a remunerações com taxas similares ao CDI, principal indicador de taxa de renda fixa.

"Qual era a combinação específica? Você [Itaipava] faz a doação em meu nome [Odebrecht], a gente cria uma conta corrente; até que eu converta isso num projeto, eu te remunero por CDI como se você fosse um banco que está me emprestando dinheiro".

Em 2014, os partidos beneficiados pelo esquema da Odebrecht com a Itaipava, classificado de "barriga de aluguel" pela Justiça Eleitoral, foram PDT, PSB, DEM, PT, PMDB e PCdoB, num total de R$ 24,8 milhões via doação oficial.

Entretanto, o esquema envolvendo Odebrecht e Itaipava, que era utilizando para gerar fluxo para seu Departamento de Operações Estruturadas (de propinas), usando um paraíso fiscal, movimentou R$ 117 milhões, de acordo com as investigações. O dinheiro repassado pela cervejaria a políticos no Brasil era devolvido pela Odebrecht no exterior. 

A empreiteira adquiria notas em reais da cervejaria, que tinha grande quantidade de moeda no Brasil devido aos bares e pequenos pontos de venda espalhados pelo país. O reembolso ao grupo era feito em contas no exterior.

Sobre o esquema, o ex-presidente e herdeiro do grupo, Marcelo Odebrecht, afirmou, também em depoimento ao TSE: "Conheço [o caso] da Itaipava. Ela fazia doação oficial e a gente encontrava uma maneira de reembolsar".



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