Ex-ministro da Saúde e atual assessor da Secretaria de Saúde de Paulo Câmara, Mozart Sales continua sob investigação do MPF por supostos desvios na Hemobras. Médico voltou à mídia por receber mais de R$ 6 milhões do Estado para combate à pandemia


Recente notícia publicada pelo colunista Lauro Jardim, de "O Globo", trouxe à tona a informação de que o governo de Pernambuco repassou R$ 6,6 milhões para Mozart Sales, ex-ministro da Saúde do PT, partido que compõe a gestão de Paulo Câmara.

O curioso nesse caso é que os pagamentos milionários foram feitos por meio de empenhos que apontam Sales, como pessoa física, como beneficiário. O que é, no mínimo, incomum.

Ao colunista, o Governo de Pernambuco alegou que o dinheiro, apesar de pago a Sales, não seria destinado a ele, mas ao financiamento da aplicação de exames de Covid-19, em um programa coordenado por ele. Segundo o governo de Pernambuco, esse procedimento seria "comum" e que apesar de aparecer no Portal da Transparência em nome de Mozart Sales, os recursos seriam destinados à empresa Equilab INC., fabricante de insumos e equipamentos nos Estados Unidos.

O que todos parecem ter esquecido, menos o Blog da Noelia Brito, é que Mozart Sales foi um dos alvos da Operação Pulso, que desbaratou um esquema criminoso de desvios de verbas na Hemobras. O caso ganhou notoriedade após terem voado dólares pela janela do apartamento de luxo em que morava o então presidente da empresa, Rômulo Maciel, nas chamadas Torres Gêmeas. Rômulo veio a falecer tempos depois, de infarto, em Portugal, onde passou a residir.

Entre os fatos investigados pela Polícia Federal, na época noticiados, constava a relação entre a direção da Hemobras, integrada por Rômulo e por Mozart, dentre outros que não chegaram a ser alvos da Operação e doações a campanhas políticas.

Segundo o G1, em matéria publicada em 09/12/2015, a investigação da Operação Pulso apurava, além dos desvios na Hebobras, por meio de fraudes em licitações, o recebimento de valores por assessores de políticos.


De acordo com a reportagem, a PF estaria investigando operações financeiras suspeitas envolvendo a direção da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás) e doações para campanhas políticas. O diretor-presidente da Hemobrás, Rômulo Maciel Filho; o diretor de Inovação Tecnológica da estatal, Mozart Sales; e o servidor Jorge Luiz Batista Cavalvanti foram afastados dos cargos.

A matéria revelou que segundo fontes da Polícia Federal, ao menos um membro da diretoria, que não teve o nome divulgado, estaria sob investigação por fazer operações financeiras próximas ao dia das eleições de 2014. Esse dinheiro teria chegado a campanhas políticas. Não foram informados para quais partidos essas doações foram feitas.


"A gente tem os nomes dos assessores que receberam esses valores, isso está muito bem definido. Temos operações financeiras suspeitas, dentre elas, algumas envolvendo assessores e contas de campanhas eleitorais de 2014, além de membros de prefeituras, ligadas à gestão pública municipal", apontou, na época, o delegado Wagner Menezes, coordenador da operação.

A PF apurava se o dinheiro viria da estatal ou de outras fontes. "Vamos aprofundar as investigações. Temos um indício de que políticos têm envolvimento. Estamos compartilhando com a Justiça Eleitoral todas as informações que temos para que sejam dados os prosseguimentos às investigações deles também", explicou o então superintendente regional da PF, Marcelo Diniz Cordeiro.

Na casa do diretor-presidente da Hemobrás, a PF também encontrou 50 quadros que estariam sendo utilizados para lavagem de dinheiro. "Foram encontradas obras de diversos artistas pernambucanos de renome. Houve uma pré-avaliação e um dos quadros foi avaliado em R$ 100 mil. Era uma galeria de arte o local", afirmou, à época, a delegada Carla Patrícia, então chefe da Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado e atual Superintendente da PF, em Pernambuco.

O Blog entrou em contato com a assessoria de Comunicação do Ministério Público Federal para que fosse informado em que pé estariam as investigações envolvendo Mozart Sales, já que os demais alvos da Operação chegaram a ser denunciados e alguns inclusive condenados, não havendo, porém, qualquer informação sobre os desdobramentos com relação a Mozart Sales.

Questionamos se houve denúncia, arquivamento do inquérito com relação a Mozar Sales ou qualquer outro desdobramento e recebemos a seguinte resposta do MPF: "como a investigação mencionada segue em andamento, ainda não temos mais informações para repassar sobre o assunto." Fica claro, portanto, que Mozart Sales segue sendo investigado pelo Ministério Público Federal. Por outro lado, lendo o processo envolvendo os demais investigados, não há menção sobre a linha de investigação que levava ao uso dos recursos desviados por políticos ou em campanhas políticas, o que nos leva à conclusão óbvia de que esses indícios contra assessores de políticos que já haviam, inclusive, sido identificados pela Polícia Federal, prosseguem.

Resta o governo de Pernambuco explicar os tais pagamentos de mais de R$ 6 milhões a uma pessoa que é investigada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal e que chegou a ser afastada de um cargo de direção numa estatal federal por determinação judicial.

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