"Notório vilão ambiental", Bolsonaro pede bilhões à comunidade internacional para a Amazônia, mas faz o oposto da conservação, estripando o sistema de proteção ambiental do país, diz o New York Times

22 de abr. de 2021

/ by Blog da Noelia Brito
crédito...Victor Moriyama para o The New York Times

Bolsonaro tem estado ocupado fazendo o oposto da conservação, estripando o sistema de proteção ambiental do país, minando os direitos indígenas e defendendo indústrias que impulsionam a destruição da floresta tropical, diz o New York Times sobre pedido bilionário de Bolsonaro à comunidade internacional

Em matéria produzida em parceria com a Rede de Investigações de Florestas Tropicais do Pulitzer Center, o Jornal americano New York Times criticou a tentativa do governo Bolsonaro de arrecadar bilhões de dólares para a Amazônia, enquanto, segundo o jornal, "tem estado ocupado fazendo o oposto da conservação, estripando o sistema de proteção ambiental do país, minando os direitos indígenas e defendendo indústrias que impulsionam a destruição da floresta tropical."

Segundo o jornal americano, enquanto o governo Biden se reúne com a comunidade internacional para conter o aquecimento global em uma cúpula sobre mudanças climáticas nesta semana, o Brasil se compromete a desempenhar um papel crítico, chegando ao ponto de prometer acabar com o desmatamento ilegal até 2030. Entretando, o NYT vê a promessa como uma espécie de "pegadinha", já que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, quer que a comunidade internacional se comprometa com bilhões de dólares para pagar as iniciativas de conservação e os doadores estão relutantes em fornecer o dinheiro para um governo que durante dois anos alimentou a reputação de "notório vilão ambiental". Marcio Astrini, que dirige o Observatório do Clima, uma organização de proteção ambiental no Brasil disse ao NYT que "este não é um governo confiável: não sobre a democracia, não sobre o coronavírus e muito menos sobre a Amazônia."

"Sob a supervisão de Bolsonaro, o desmatamento na floresta amazônica, de longe o maior do mundo, subiu ao mais alto nível em mais de uma década. A destruição, que tem sido impulsionada por madeireiros que limpam terras para pastagem de gado e para operações ilegais de mineração, provocou indignação global em 2019, à medida que grandes incêndios se alastraram por semanas", diz o Jornal, para quem o "governo Trump fez vista grossa ao registro ambiental do Brasil sob o comando de Bolsonaro, um aliado próximo do ex-presidente americano."

Só com a mudança de mãos, em janeiro, os Estados Unidos começaram a pressionar o Brasil a controlar o desmatamento, juntando-se à União Europeia, Noruega e outros, alertando que sua piora de reputação dificulta o potencial econômico do país.

"Queremos ver resultados concretos", disse Todd Chapman, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, a um grupo de líderes empresariais brasileiros no início deste mês. "Madeireiros ilegais e mineiros, toda essa atividade ilegal, por que você quer pagar a conta por isso?"

Logo após o presidente Biden tomar posse, altos funcionários de seu governo começaram a se reunir com o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, em um esforço para buscar um terreno comum antes da reunião sobre o clima deste mês.

As reuniões a portas fechadas foram vistas com medo por ambientalistas, que desconfiam profundamente do governo Bolsonaro. As conversas motivaram campanhas frenéticas de ativistas com a intenção de alertar as autoridades americanas a não confiarem no governo brasileiro.

Biden declarou durante um debate que tentaria arrecadar US$ 20 bilhões para salvar a Amazônia, irritando Bolsonaro. No entanto, diz o NYT, o presidente brasileiro adotou um tom muito mais conciliador em uma carta de sete páginas que enviou a Biden no início deste mês.

Para começar, Salles disse em uma entrevista em março, que o governo ficaria feliz em receber os US$ 20 bilhões propostos por Biden, chamando a soma de "proporcional aos desafios que temos na Amazônia".

Eles incluem um fundo para os esforços de proteção da Amazônia que a Noruega e a Alemanha congelaram em 2019 depois que o governo de Bolsonaro criticou alguns dos projetos e desmantelou salvaguardas para garantir que o dinheiro fosse usado efetivamente.

"A falta de vergonha do governo em pedir recursos no exterior é impressionante", disse Araújo. "Por que ele não usa o dinheiro que está lá?"

Organizações ambientalistas e indígenas têm expressado profundo ceticismo sobre a vontade professada por Bolsonaro de combater o desmatamento e alertaram os doadores internacionais a se absterem de dar ao governo brasileiro dinheiro que temem que possam ser usados para minar a proteção ambiental.

Nas últimas semanas, ambientalistas levantaram o alarme, e celebridades — incluindo o cantor brasileiro Caetano Veloso e o ator norte-americano Leonardo DiCaprio — assinaram uma carta que transmitia "profunda preocupação" com as conversas.

Não há sinais de que o governo Biden esteja considerando oferecer para financiar os esforços de desmatamento em uma escala significativa, o que exigiria o apoio do Congresso.

Jen Psaki, secretária de imprensa da Casa Branca, disse na semana passada que os Estados Unidos não esperam anunciar um acordo bilateral com o Brasil na cúpula climática desta semana.

"Queremos ver um compromisso claro com o fim do desmatamento ilegal, medidas tangíveis para aumentar a aplicação efetiva do desmatamento ilegal e um sinal político de que o desmatamento ilegal e a invasão não serão tolerados", disse ela a repórteres na semana passada.


Especialistas dizem que há pouca razão para ser otimista.

O plano orçamentário anual que o governo Bolsonaro submeteu recentemente ao Congresso inclui o menor nível de financiamento para órgãos ambientais em duas décadas, segundo análise do Observatório do Clima.

Após o vice-presidente do país, Hamilton Mourão, anunciar a primeira meta do governo para a redução do desmatamento no início deste mês, especialistas apontaram que atingir a meta deixaria o Brasil até o final de 2022 com um nível de desmatamento 16% maior do que o que o sr. Bolsonaro herdou em 2019.

O governo Bolsonaro está apoiando um projeto de lei que daria anistia aos grileiros de terras, um movimento que abriria uma faixa da Amazônia pelo menos do tamanho da França para um desenvolvimento em grande parte não regulamentado. Outra iniciativa que está pressionando no Congresso facilitaria a fiscalização das licenças ambientais das empresas e abriria caminho para operações legais de mineração em territórios indígenas.

"E há uma profunda desconfiança em relação ao Sr. Salles entre ambientalistas e servidores públicos no campo. Um alto funcionário da Polícia Federal na Amazônia acusou recentemente o ministro de obstruir uma operação policial contra madeireiros ilegais", apontou o NYT, numa referência à notícia-crime enviada ao STF, pelo ex-Superintendente da PF, Alexandre Saraiva, contra Salles, por ações de proteção a madeireiros criminosos.Os líderes do setor privado estão entre os mais preocupados com o histórico do governo sobre o meio ambiente. Embora a China compre quase um terço das exportações brasileiras, os americanos são investidores cruciais em empresas cujas cadeias de suprimentos são vulneráveis ao desmatamento.


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