1º DE MAIO, DIA DA LITERATURA BRASILEIRA. A COMEMORAR, APENAS O TALENTO DE NOSSOS ESCRITORES, POR NOELIA BRITO

1 de mai. de 2021

/ by Blog da Noelia Brito

Foto: Noelia Brito/Arquivo pessoal

 “País sem leitores é país sem pensamento” (Nélida Piñon)

 Nesse dia dedicado à Literatura Brasileira, quando a única coisa a se comemorar é o talento de nossos escritores, celebremos a grandiosidade de nossa Literatura, ainda que sejamos um País onde o hábito da leitura nunca foi suficientemente estimulado pelos governos que se seguiram, culminando com o atual, onde a tônica é a total deturpação do papel que o Estado deve ter no aprimoramento cultural de seu povo. Chegamos ao ponto de se pretender tributar livros sob o pretexto de que “pobre não lê”.

 Homenagem aos escritores brasileiros, a data tem como referência, o aniversário do escritor cearense José de Alencar, nascido em 1º de Maio de 1829.

Autor de clássicos do Romantismo brasileiro, a exemplo de Iracema, Lucíola, Tronco do Ipê, Senhora e o Guarani, apenas para citar algumas, Alencar foi grande amigo de Machado de Assis, de quem recebeu, como homenagem póstuma, o patronato da cadeira nº 23, da Academia Brasileira de Letras, ocupada pelo próprio Machado. José de Alencar morreu cerca de 20 anos antes da fundação da ABL.

Machado de Assis, por muitos considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos, dispensa comentários. Impresso, pela primeira vez, em 1900, Dom Casmurro desperta, até hoje, calorosos debates e assim como outras obras de Machado, já foi tema de centenas de teses de Mestrado e Doutorado pelo mundo a fora[1].

A riqueza da Literatura Brasileira, engrandecida pelas obras de gênios na arte de escrever, seja na Poesia, seja na Crônica, seja no Romance ou no Conto, não deixa a dever a nenhuma outra do Planeta. Se Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector não alcançaram, ainda, a merecida glória mundial é simplesmente pelo fato de não serem suficientemente conhecidos. Quem os lê se impressiona.

Nélida Piñon, primeira mulher a presidir a ABL – no ano do Centenário, diga-se de passagem - romancista e contista de mão cheia[2], atribui a não universalização da literatura brasileira a uma falta de vocação de intelectuais e escritores brasileiros a um exílio voluntário, deixando de marcar presença nos grandes centros irradiadores de cultura e de poder.[3] Segundo Nélida, não há nem nunca houve uma grande política de expansão cultural promovida pelo governo brasileiro. A escritora, aliás, recebeu o segundo prêmio mais importante da literatura universal, o Príncipe das Astúrias – hoje, Prêmio Princesa das Astúrias-, consagrando-se como a primeira pessoa de escrita em Língua Portuguesa a recebê-lo.

Produzir literatura, no Brasil, sempre foi um ato de heroísmo. Os direitos autorais são módicos, as livrarias são escassas. Não à toa, gênios como Clarice Lispector tiveram que abraçar outra profissão para pagar as contas no final do mês.

Clarice foi jornalista. Aluízio Azevedo, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, Graça Aranha, João Almino e Raul Bopp, foram diplomatas. Aliás, a Diplomacia é profícua em receber escritores em seu seio. Joaquim Cardozo, conhecido como “o poeta que calculava”, foi engenheiro. Lygia Fagundes Telles se aposentou como procuradora do Estado de São Paulo. Machado de Assis foi, durante quarenta anos, servidor público, carreira iniciada na tipografia da Imprensa Nacional. Machado também se dedicou à tradução. Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto, Lêdo Ivo, Alphonsus Guimarães, Elisa Lispector, todos, servidores públicos[4]. Moacyr Scliar, Joaquim Manuel de Macedo foram médicos, aliás, existe até uma Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES), associação cultural que congrega médicos que se dedicam à Literatura não científica.

Muitos escritores se dedicam ou se dedicaram à tradução das obras de outros escritores. Foi o caso de Raquel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na ABL e a receber o prêmio Camões. Assim como Machado de Assis, já citado, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Cecília Meirelles, Paulo Mendes Campos, Ana Cristina Cesar, que também compartilham ou compartilharam a produção literária com a tradução de autores estrangeiros.

Assim como aconteceu com a música, com a possibilidade de distribuição, pelo próprio artista, de seu trabalho, pelas plataformas de “streaming”, como YouTube Music,  Spotify, Deezer, Amazon Music, Apple Music, Tidal, na literatura também houve mudanças na forma de se editar e distribuir as obras, com a migração de escritores para plataformas, onde é possível, a qualquer um, publicar um livro de forma autônoma.

A Revista Bula fez, inclusive, um levantamento do que chamou de “As 12 melhores plataformas para publicação de livro”[5]. Dentre as mais conhecidas, Kindle Direct Publish[6], Kobo Writing Life[7], Wattpad[8], Scrytos[9], Livros Digitais[10] e Clube dos Escritores[11].

Apesar dos percalços, a Literatura Brasileira se renova não apenas na forma de edição das obras, fenômeno que, afinal, ocorre em todo o mundo, mas também pelo surgimento de novos talentos e aqui cito Marcelino Freire e, porque não dizer, pela (re)descoberta de escritores gigantes, como Lucio Cardoso, por exemplo.

Nesse dia dedicado à Literatura Brasileira, quando a única coisa a se comemorar é o talento de nossos escritores, celebremos a grandiosidade de nossa Literatura, ainda que sejamos um País onde o hábito da leitura nunca foi suficientemente estimulado pelos governos que se seguiram, culminando com o atual, onde a tônica é a total deturpação do papel que o Estado deve ter no aprimoramento cultural de seu povo. Chegamos ao ponto de se pretender tributar livros sob o pretexto de que “pobre não lê”.

A apologia da ignorância, lamentavelmente, saiu do campo da omissão e virou política de governo, então, ave, ave, evoé, escritores brasileiros, que seguem, irresignados. sua sina de remar contra a maré, seja por intermédio de editoras tradicionais, seja pelas plataformas digitais.

 

Por Noelia Brito,

amante dos livros e apaixonada por nossos escritores



[1] Algumas podem ser lidas em http://machado.mec.gov.br/autor-obra-lista/itemlist/category/33-teses-e-dissertacoes

[2] Dentre as obras de Nélida Piñon podemos citar Guia-mapa de Gabriel Arcanjo (romance), 1961, Madeira Feita Cruz (romance), 1963, A Força do Destino (romance), 1977, A República dos Sonhos (romance), 1984, Livro das Horas,2012 e Filhos da América, 2016.

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