Bolsolão: Fernando Bezerra Coelho é citado pela Crusoé como beneficiário do "mensalão" de Bolsonaro

14 de mai. de 2021

/ by Blog da Noelia Brito

FBC no avião presidencial. Líder do governo Bolsonaro no Senado é citado por revista como beneficiário do mensalão do atual presidente. O senador já foi alvo da Operação Desintegração, da Polícia Federal, por suspeita de desvios de recursos da Transposição do Rio São Francisco
 

Segundo a revista, uma empresa ligada à família do líder do governo recebeu uma pequena fortuna a partir dos recursos do orçamento paralelo. A Liga Engenharia, cujo dono é cunhado de um sobrinho do senador, recebeu pelo menos 28 milhões nos últimos seis meses da Codevasf e do DNOCS, o Departamento Nacional de Obras contra a Seca, que igualmente levou um pedaço importante da bolada.

Matéria da Revista Eletrônica Crusoé, que começa a circular hoje, traz detalhes sobre o que tem sido chamado de "mensalão do Bolsonaro", o "Bolsolão".

Segundo a revista, "Aos primeiros sinais de que era preciso compor com uma parcela do Congresso Nacional, ele piscou e logo fechou uma aliança com o fisiológico Centrão. Desde então, começou a pagar o preço para ter uma base parlamentar capaz de lhe dar sustentação mínima na Câmara e no Senado."

Segundo a revista, para alimentar sua base no Congresso, o presidente criou uma espécie de "orçamento paralelo em que bilhões de reais são destinados a alguns ministérios e gastos, por debaixo dos panos, de acordo com o interesse de parlamentares escolhidos a dedo pelo Planalto."

A lógica seria a mesma dos escândalos que emergiram nos governos anteriores: usar dinheiro público para garantir o apoio de congressistas, a exemplo do mensalão, o esquema descoberto no primeiro mandato de Lula e do petrolão, em que contratos gigantescos da Petrobras se convertiam em propinas para políticos aliados do governo.

A diferença é que, agora, sob Bolsonaro, a coisa se dá com recursos do orçamento, usando de subterfúgios para maquiar a distribuição.

A revista aponta o general Luiz Eduardo Ramos, hoje chefe da Casa Civil, como responsável por "organizar a partilha".

A ideia foi gestada a partir de uma parceria do palácio com o Congresso. Para o modelo dar certo, foi preciso criar a figura das “emendas de relator”, em que um pedaço dos gastos anuais do governo tem necessariamente que ser aplicado de acordo com a indicação do parlamentar escolhido para ser o relator do orçamento federal, normalmente um aliado do governo. Só no passado, esse naco foi de 20 bilhões de reais.

Como mostrou o jornal O Estado de S. Paulo, só o Ministério do Desenvolvimento Regional, comandado por Rogério Marinho, recebeu 3 bilhões de reais. A dinheirama passou a ser gasta pela pasta de acordo com uma planilha elaborada pelo Planalto na qual deputados e senadores foram agraciados, na medida de sua importância e de sua lealdade ao governo, com valores que eles próprios podiam dizer onde deveriam ser alocados.

Uma vez listados como “beneficiários”, bastava que eles enviassem ao ministério uma comunicação apontando onde queriam que o dinheiro fosse parar. A partilha teve seu auge no processo que elegeu Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, ambos candidatos apoiados pelo Planalto, para as presidências das duas casas do Congresso. “É um mensalão disfarçado de emendas parlamentares. Compra explícita de apoio político”, diz Gil Castello Branco, da ONG Contas Abertas, que monitora os gastos públicos.

Sabia-se, até agora, que uma parte das indicações dos parlamentares foi destinada, por exemplo, à compra de tratores com preços superfaturados em mais de 200%. Faltava ainda apontar quem se beneficiou do dinheiro, lá na ponta, lembra a revista.

A partir das planilhas e dos ofícios enviados ao ministério, Crusoé seguiu o caminho de uma parte da verba para saber exatamente onde ela foi parar.

O resultado confirma a lógica: depois de ser transferida para a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), uma companhia estatal dominada pelo Centrão que foi anabolizada justamente na onda do orçamento paralelo, parte dos recursos teve como destino empresas que pertencem ou estão intimamente ligadas a políticos, além de ter irrigado o caixa de prefeituras comandadas por cabos eleitorais dos deputados e senadores.

A Crusoé revela que "recursos enviados para a base eleitoral do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, por exemplo, foram parar em empresas de um irmão dele e de um amigo íntimo da família. Outra parte da fortuna federal distribuída a aliados teve como destino a concessionária de um prefeito amigo do presidente Jair Bolsonaro – os recursos que chegaram à empresa haviam sido destinados por correligionários do prefeito."

O quintal dos Bezerra

Dos 3 bilhões do orçamento paralelo que foram para o Ministério do Desenvolvimento Regional, 459 milhões tiveram a Codevasf como destino. E, desse valor, nada menos que 125 milhões seguiram para o caixa da companhia por indicação do senador Fernando Bezerra Coelho, do MDB, aliado de primeiríssima hora do presidente Jair Bolsonaro, a ponto de ter sido escolhido por ele como líder do governo no Senado apesar de responder a várias investigações federais por suspeita de desvio de verba.

De acordo com a revista, "Fernando Bezerra, que também já foi ministro de Dilma Rousseff, tem a Codevasf como um de seus principais feudos. A superintendência da companhia em Petrolina, cidade pernambucana dominada politicamente há décadas pela família do senador, tem no comando um ex-assessor dele, Aurivalter Cordeiro. Foi justamente para lá que Fernando Bezerra destinou uma parcela da verba com a qual foi 'contemplado' pelo Palácio do Planalto".

Como o mundo é pequeno, diz a Crusoé, o dinheiro foi parar no círculo íntimo do senador. Do ano passado para cá, pelo menos 10 milhões de reais foram usados para comprar máquinas e caminhões em uma concessionária local chamada HGV Veículos.

O dono da empresa, Hugo Bezerra Gurgel Neto, é amigo do peito de um dos filhos do senador, o deputado estadual Antônio Coelho. Desde novembro, 19 contratos já foram fechados pela Codevasf com a HGV.

Procurado, o empresário admitiu a existência dos negócios com a companhia, mas ao ser indagado sobre como conseguiu os contratos desligou o telefone e não atendeu mais. Há “relações comerciais” com mais gente próxima da família do líder do governo.

Sem licitação, a companhia comprou por 205 mil reais uma van da empresa Mavel Máquinas e Veículos, que tem como sócio Caio Bezerra de Souza Coelho, irmão do senador. Os dados registrados nos sistemas da Codevasf, aos quais a reportagem teve acesso, mostram que o veículo foi pago com recursos destinados pelo próprio Fernando Bezerra Coelho.

Outra pessoa próxima da família que tem conseguido fechar contratos com a Codevasf é Marco Antonio Coelho Carvalho, procurador da prefeitura de Juazeiro, cidade vizinha a Petrolina que também é historicamente dominada pelo clã.

A Tratormaster Tratores, Máquinas, Peças e Serviços, da qual Marco Antonio é sócio, recebeu 1,5 milhão vendendo retroescavadeiras para a Codevasf, também sem licitação.

Há, ainda, segundo a revista, outra empresa ligada à família do líder do governo que recebeu uma pequena fortuna a partir dos recursos do orçamento paralelo – nesse caso, não pela venda de máquinas, mas por serviços de pavimentação. A Liga Engenharia, cujo dono é cunhado de um sobrinho do senador, recebeu pelo menos 28 milhões nos últimos seis meses da Codevasf e do DNOCS, o Departamento Nacional de Obras contra a Seca, que igualmente levou um pedaço importante da bolada.

O Blog da Noelia Brito obteve cópia da Ata de Registro de Preços que confirma a contratação da Liga Engenharia, que a Crusoé aponta como de propriedade de contraparentes do líder do governo Bolsonaro, Fernando Bezerra Coelho, com a Codevasf. Confiram:

 

Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) já foi alvo de Operação Desintegração da Polícia Federal, realizada ainda em 2019, juntamente com seu filho Fernando Coelho Filho (DEM-PE).


Na ocasião, 52 mandados de busca e apreensão foram cumpridos pela PF, nove deles no Recife, incluindo os apartamentos de Fernando Bezerra e Fernando Filho na Av. Boa Viagem e em escritórios políticos ligados à família em Petrolina, onde o filho, Miguel, é prefeito.

O inquérito, instaurado por determinação do ministro Roberto Barroso, apura desvio de dinheiro público nas obras da Transposição do Rio São Francisco. A suspeita é de que dinheiro de contratos superfaturados ou fictícios de obras vinculadas ao Ministério da Integração Nacional tenha sido desviado para campanhas dos políticos. Os fatos investigados são do período em que Fernando Bezerra Coelho era ministro da Integração Nacional de Dilma Rousseff (PT). Na época, FBC era filiado ao PSB e era nome de confiança do ex-governador Eduardo Campos no governo petista. 

A Desintegração é um desdobramento da Operação Turbulência, deflagrada em 2016, que prendeu supostos donos do avião que caiu em 2014, em Santos (SP), com o ex-governador Eduardo Campos durante a campanha à Presidência.

A matéria na íntegra pode ser conferida AQUI, exclusiva para assinantes.

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