"Jeito brasileiro" de combater a pandemia é propício para surgimento de supercepas de coronavírus, resistentes às vacinas, apontam cientistas

17 de mai. de 2021

/ by Blog da Noelia Brito

Segundo três especialistas com passagem pelo Ministério da Saúde, um deles no comando da pasta, se corrigidos meses atrás, muitos erros afastariam temores como o país ser o berço de uma cepa do coronavírus resistente a vacinas.

Desarticulação das políticas sanitárias, quarentenas pouco eficientes devido à pressão do poder econômico, imunização nacional pulverizada e baixa cobertura relativa ao tamanho da população. Após quatro meses do início da vacinação contra a covid-19, em 17 de janeiro, técnicos avaliam que o “jeito brasileiro” de responder à pandemia impõe agora a desconfortável posição de lidar com um risco em perspectiva.

Segundo três especialistas com passagem pelo Ministério da Saúde, um deles no comando da pasta, se corrigidos meses atrás, muitos erros afastariam temores como o país ser o berço de uma cepa do coronavírus resistente a vacinas.

Não se pode afirmar determinantemente que vá ocorrer essa nova cepa, ponderam. De patógeno que vem apresentando o comportamento imprevisível do Sars-Cov-2, inclusive passando a matar mais jovens, pode-se esperar o pior - mesmo que sua agressividade se atenue. Mas o surgimento de supercepa não é impossível, admitem sanitaristas. E o Brasil vem apertando todos os comandos para rumar nessa direção.

“Não temos como afirmar categoricamente que uma variante que resista a vacinas vá surgir no Brasil. Vírus mutam o tempo todo. Algumas dessas mutações podem nos ser favoráveis, outras não. Mas, em tese, a possibilidade existe e precisamos trabalhar com diferentes cenários de risco”, afirma José Gomes Temporão, médico sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-ministro da Saúde.

No campo das dúvidas criadas por uma pandemia descontrolada, mesmo os mais renomados técnicos não arriscam negar que a temida cepa da Índia chegou ao Brasil. “A falta de exigências para entrada de estrangeiros e de medidas preventivas nas fronteiras já pode ter aberto essa passagem”, diz Adriano Massuda, professor e pesquisador do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da FGV-EAESP. Somente na sexta-feira, a Casa Civil publicou portaria que inclui voos com passagem pela Índia na lista de restrição para pouso no Brasil - além de Reino Unido e África do Sul.

Para Massuda e Temporão, a imprevisibilidade sobre como a vacinação vai avançar no país nos próximos meses se deve a falhas intencionais na resposta federal à pandemia e ao desprezo de Brasília por ofertas de laboratórios. “Vão deixar uma cicatriz no tecido social brasileiro que nunca vai ser removida”, afirma o ex-ministro.

Eles citam os 70 milhões de doses da Pfizer ignoradas pelo governo de Jair Bolsonaro. O tema, que na semana passada escandalizou parlamentares na CPI da Covid e a comunidade científica, está no centro da desordem na vacinação, já que a dificuldade de acesso a insumos e doses causa interrupções frequentes nas campanhas.

Epidemiologista e cientista social, Carla Domingues, que coordenou o programa do governo entre 2011 e 2019, chama atenção para outra dimensão mencionada pelos colegas - a vulnerabilidade social e econômica como obstáculo à adoção de um lockdown. Para a pesquisadora, o governo deveria ter sido mais diligente e generoso com o auxílio emergencial.

“É um valor irrisório. Quem pode sobreviver hoje com R$ 350 mensais, se um botijão de gás custa R$ 100?”, questiona. O benefício, que na primeira onda da pandemia foi fixado em R$ 600, hoje varia de R$ 150 a R$ 350.

Carla observa que, sem o Estado dando garantias para que as pessoas fiquem em casa, resta aos mais pobres buscar sustento fora.

A matéria completa pode ser lida AQUI exclusiva para assinantes do Valor Econômico

Nenhum comentário

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

© Todos os direitos reservados - 2021