Há 90 anos nascia João Gilberto, o "pai da Bossa Nova". Artista faleceu em 2019

10 de jun. de 2021

/ by Blog da Noelia Brito

Foto: Michael Ochs Archives/Getty Images


Para o produtor Rodrigo Gorky, o fato de Anitta e outros artistas pop estarem recorrendo à bossa nova buscando conquistar o mercado internacional é sinal de força do gênero brasileiro. “Eles vão atrás disso porque o que o público hoje em dia quer consumir não é nada mais, nada menos que uma novidade familiar. Quando a Anitta usou [a melodia de] ‘Garota de Ipanema’, ela fez exatamente isso e acertou em cheio, porque ela está trazendo algo novo, mas extremamente familiar”, pontua.

Há 90 anos, em 10 de junho de 1931, nascia, na cidade baiana de Juazeiro, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, o João Gilberto, que viria a se tornar, anos depois, em um dos maiores expoentes da música brasileira mundo a fora.

Foi no ano de 1958, que João Gilberto viria a lançar aquele é que é considerado o marco fundador da bossa nova: o compacto em 78 rotações de “Chega de saudade”, composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que do outro lado trazia “Bim bom”, do próprio cantor. O canto sussurrado e a batida de violão que sintetizava a batucada do samba tradicional marcaram aquela geração e as seguintes, levando a música brasileira a romper as fronteiras do país e a conquistar o mundo. 


“Ele é um divisor de águas. A música brasileira é uma antes e outra depois dele. Tanto é que dos meus companheiros de geração, sem exceção, quando você pergunta como começou a se interessar e a querer fazer música, todo mundo unanimemente diz que foi muito impactado por ter ouvido o João pela primeira vez”, observa a cantora, compositora e instrumentista Joyce Moreno, para a CNN.

Ela pontua que a influência do artista, que morreu em 6 de julho de 2019 no Rio de Janeiro, desaguou em diversas vertentes musicais, como se fossem afluentes de um mesmo rio. “Foi uma coisa que realmente marcou todo mundo, e cada um seguiu seu caminho. Eu segui o meu, os baianos criaram o Tropicalismo, os mineiros criaram o Clube da Esquina. Tem uma segunda geração da bossa nova, Marcos Valle, Edu Lobo, Dori Caymmi, Francis Hime... Para todos nós, todos mesmo, o impacto foi o mesmo”, arrisca. Gal Costa confirma: “O impacto da bossa nova e, principalmente, de João Gilberto no meu canto foi radical e transformador. Aquele estilo me fascinou e mudou meu estilo de cantar”. 

 


Além do talento e ousadia, que o levaram a realizar uma obra reverenciada no mundo inteiro, João Gilberto tornou-se uma figura mítica também por sua personalidade. Em 1970, quando passou uma temporada de dois meses no México como integrante do grupo Luiz Eça & Sagrada Família (do qual também faziam parte músicos como Naná Vasconcelos e Nelson Angelo), Joyce conviveu de perto com João, que estava morando no México e volta e meia aparecia no hotel onde o grupo estava. “Todo mundo ficava apaixonado por ele. João era uma pessoa hipnótica. Ele era essa pessoa que envolve tanto você que você acaba ‘virando’ ele, sabe?”, diverte-se ela. 

 Em 2000, João Gilberto fez o show de reinauguração do Teatro Santa Isabel, no Recife:

 

Produtor por trás de sucessos de nomes como Pabllo Vittar, Rodrigo Gorky é também um ávido colecionador de discos de vinil, e acrescenta que a bossa nova segue influenciando até a música pop, ainda que de forma diluída. “Várias das últimas coisas que eu tenho escutado têm muita coisa de bossa nova envolvida. Que vão nessa mesma pegada que a Anitta fez em ‘Girl from Rio’”, conta ele, citando o portorriquenho Bad Bunny, com o sucesso recente “Si veo a tu mamá”, de 2020, e o duo norte-americano Surfaces, com a música "24 / 7 / 365”, de 2017, que, assim como a música de Anitta, têm a mesma melodia de “Garota de Ipanema”, clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. “No caso dessas músicas, a influência é mais direta, mas nem sempre ela vem direto da fonte”, diz.

Ele cita, por exemplo, a faixa “Castaways”, do desenho animado Backyardigans, que se tornou sucesso recentemente nas redes sociais. “É uma bossinha, e essa música viralizou muito no Tik Tok. E aí é até legal, que você tem vídeos de pessoas jovens tentando explicar: ‘Olha, isso aqui vem de bossa nova.' Existem coisas muito peculiares de bossa nova que são usadas. Não somente para fazer coisas de bossa, mas também para ir para outros lugares. Tensões, e tudo, mais com músicas, em qualquer gênero, seja pop, seja... R&B também tem puxado bastante coisas de bossa”, conta.

Para ele, o fato de Anitta e outros artistas pop estarem recorrendo à bossa nova buscando conquistar o mercado internacional é sinal de força do gênero brasileiro. “Eles vão atrás disso porque o que o público hoje em dia quer consumir não é nada mais, nada menos que uma novidade familiar. Quando a Anitta usou [a melodia de] ‘Garota de Ipanema’, ela fez exatamente isso e acertou em cheio, porque ela está trazendo algo novo, mas extremamente familiar”, pontua.

Outro acerto do clipe de “Girl from Rio”, diz o produtor, foi contrapor a imagem representada pelo Brasil da bossa à do Brasil representado pelo funk, estilo que Anitta cantava quando começou sua carreira musical. “Quando rolou essa coisa toda da bossa nova lá fora, tinha uma finesse ali que não traduzia necessariamente tudo o que acontecia no país. Era uma visão um pouco mais romântica de tudo, de que é tudo muito bonito, muito belo. Vamos dizer que é uma visão bem turística, enquanto na realidade a música brasileira e bem mais caótica do que isso — caótica num sentido bom, de que é muita informação, muita coisa. É muito mais complexo do que as pessoas veem. Anitta acertou muito em mostrar que não é só uma coisa”, argumenta.

O clipe surge em um momento em que muito se critica a elitização da bossa nova, um movimento capitaneado por jovens brancos da Zona Sul carioca (embora João Gilberto fosse baiano), com pouco espaço para mulheres e apagamento de artistas negros que estiveram presentes desde o surgimento do gênero musical, como Johnny Alf (considerado por muitos um de seus precursores) e Alaíde Costa.

Se é urgente a necessidade de apontarmos injustiças e resgatarmos nomes que sofreram apagamento de sua participação no movimento — Alaíde Costa, por exemplo, irá realizar um álbum com direção artística de Marcus Preto e Emicida, que também fará grande parte das letras —, isso não significa diminuir a importância de nomes como Tom, Vinicius e João Gilberto. Para Joyce, só há uma definição possível para o “bruxo”: “Genial. Não tem outra palavra para o João. Genial mesmo. Uma coisa incrível mesmo”.

 A matéria completa pode ser conferida no site da CNN BRASIL.

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