EXCLUSIVO: PF aponta "supostas transações clandestinas" entre marido de ex-diretora da Secretaria de Saúde do Recife, denunciada por desvios na pandemia e doleiros alvos da "Operação Amphis"

23 de set. de 2021

/ by Blog da Noelia Brito

Foto: Reprodução
 

Documento da Operação Amphis, a que o Blog da Noelia Brito teve acesso, aponta que um dos sócios da empresa de factoring GUMFACTORING FOMENTO COMERCIAL, é Felipe Bravo, marido da ex-diretora da Secretaria de Saúde do Recife, Mariah Bravo, alvo das Operações Apneia e Bal Masqué, da PF, por suspeita de desvios na pandemia. De acordo com a Polícia Federal, a proximidade e a recorrência dos contatos entre Felipe Bravo e o doleiro Manoel Leal "indicam que a relação não se limitava ao âmbito de cliente e empresa, mas evidenciava possível participação dos citados indivíduos em supostas transações clandestinas a cargo do suposto doleiro, mantendo, assim, verdadeira sociedade entre ambos."

 

Documentos relativos ao Pedido de Buscas e Apreensões que deflagrou a segunda fase da "Operação Amphis", apontam uma curiosa ligação entre a empresa de factoring de Felipe Bravo, marido de Mariah Bravo, ex-diretora da Secretaria de Saúde do Recife, durante a gestão de Jailson Correia e Geraldo Julio e já denunciada pelo Ministério Público Federal por suspeita de desvios de recursos públicos na pandemia e uma suposta organização criminosa com atuação em Pernambuco e em outras unidades da federação, além dos Estados Unidos da América, "envolvida em pretenso esquema de operações financeiras clandestinas, pelo qual promoveriam evasão de divisas e ocultação de ativos financeiros, utilizando-se, para tanto, de identidades falsas, contas bancárias sob a titularidade de terceiros, empresas fictícias, gerando, ainda, a suspeita sobre o cometimento de uma série de outros delitos de diferentes espécies, tais como criação e utilização de documentos públicos e particulares forjados, além de descaminho."

Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão da Operação Amphis, a Polícia Federal chegou a apreender um celular pertencente a Mariah Bravo, esposa de Felipe Bravo (Foto: Reprodução/PJE)

Mariah Bravo foi denunciada juntamente com o ex-secretário de Saúde do Recife e o ex-diretor financeiro da Secretaria Felipe Bittencourt, pela compra de respiradores imprestáveis para uso em seres humanos, a chamada Operação Apneia, que a exemplo da Operação Amphis, foi conduzida pelo DPF Daniel Silvestre. A ex-direitora ainda é investigada em outros inquéritos envolvendo suspeita de recursos da pandemia, dentre elas a Operação Bal Masqué. A Prefeitura do Recife, durante as gestões de Geraldo  Julio, Jailson Correia, Mariah Bravo e Felipe Bittencourt foi alvo de sete Operações da Polícia Federal, todas relacionadas com suspeitas de desvios de recursos da pandemia.

Foto: Reprodução Relatório PF/PJE

O inquérito policial que deu início às investigações da Operação Amphis, no entanto, nada tem a ver com as investigações relacionadas com a pandemia. Na verdade, teve início a partir de notícia de operações financeiras anômalas pelas pessoas jurídicas TRINDADE EXPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. e ODYSSEIA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. - ME, relatadas em Relatório de Inteligência Financeira - RIF nº 8609, do Conselho de Controle de Atividades Financeiras - COAF. 

De acordo com os autos públicos do pedido de buscas, a que o Blog da Noelia Brito teve acesso, o doleiro Manoel Leal (também através do uso de identidades fictícias em nome de Manoel Ferraz Leal e Manoel Leal Neto), juntamente com Ana Maria Loyo Brennand (esposa), Eduardo César Brennand Leal (filho) e Roberto Montarroyos Vasconcelos (também através do uso da identidade fictícia em nome de Carlos Adriano Gomes Mendes), em tese, criou e gerenciou uma complexa rede para movimentar grandes somas de dinheiro entre o Brasil e o exterior (tanto externalizando como internalizando valores) por meio da operação denominada de "dólar-cabo".

Para tanto, ainda segundo a representação policial, a organização criminosa investigada teria se acoplado "estruturalmente com outros dois grupos, compostos por Azim Balbino da Silva e Suhellen Oliveira da Silva (esposa) e por Jean Davidson Araújo e Paloma Thaís de Lima (esposa), que, através de diversas empresas fictícias e de fachada, no Brasil e no exterior, e contas bancárias em nome próprio, em tese, atuavam na lavagem de capitais e no próprio sistema de compensações típicas das operações de 'dólar-cabo'."

Como visto, as investigações deram ensejo à deflagração da primeira fase da Operação Amphis, quando imagens de documentos e diálogos apreendidos em aplicativos de mensagens instantâneas dos aparelhos do casal de doleiros Manoel Leal e Paloma Thais, em cotejo com RIFs do COAF, reforçaram a suspeita de prática dos crimes já investigados bem como sua continuidade até as vésperas da deflagração da "Operação Amphis".

Além disso, a "análise preliminar dos dados obtidos levaram as autoridades a redesenhar o panorama dos fatos, a partir da constatação da existência de uma rede internacional de 'doleiros' muito mais abrangente do que inicialmente se pensava, com a suposta participação de outros atores nas operações financeiras clandestinas a cargo dos investigados, operando no Brasil ou nos Estados Unidos da América, a saber, LUIS FELIPE DE ANDRADE (CPF n.º ...); ELIANE BEZERRA DE VASCONCELOS FRADE (CPF n.º ...); SÍLVIA CRISTINA LESSA BEZERRA (n.º ...); PAULO JORGE BARROSO FRADE (CPF n.º ...); ÉRICO BRANDÃO ARCOVERDE (CPF n.º ...); WALDÊNIO CARNEIRO DE FARIAS (CPF n.º ...); LUIS FELIPE DE ANDRADE MEI (CNPJ n.º ...); CASAFORTE DESENVOLVIMENTO IMOBILIÁRIO EIRELI EPP (CNPJ n.º ...); AMEX BRASIL REPRESENTAÇÕES (CNPJ n.º ...); e JB TURISMO E RECEPTIVOS EIRELI (CNPJ N.º 07.057.014/0001-90 - matriz; e CNPJ N.º 07.057.014/0002-71 e CNPJ N.º 07.057.014/0003-52 - filiais)."

De acordo com as investigações, "Felipe Bravo e Geraldo Uchôa, vinculados à empresa GUNFACTORING FOMENTO COMERCIAL LTDA, aparecem realizando supostas transações financeiras de interesse de Manoel Leal." Na decisão do juiz federal Cesar Arthur,  as "análises revelaram que Manoel Fernandes mantinha parceria com a empresa GUMFACTORING FOMENTO COMERCIAL LTDA, a qual, em tese, abastecia de recursos o possível esquema criminoso mantido pelo alvo, sem qualquer comunicação das transações ao COAF. Revela destacar, outrossim, que, para as autoridades, a quantidade e a natureza dessas operações denotam uma relação de parceria entre a empresa e o operador, o que merece maior aprofundamento."

Para os investigadores, "a relação de Manoel com factorings é antiga, sendo, aparentemente, um meio de obtenção de recursos financeiros para cumprimento dos seus compromissos no Brasil."

Com relação à empresa de factoring de Felipe Bravo, que o Blog apurou se tratar de ninguém menos que o marido da ex-diretora da Secretaria de Saúde do Recife, Mariah Bravo, alvo de outras operações da PF, por suspeita de desvios na pandemia, de acordo com a representação policial, a proximidade e a recorrência dos contatos entre aquele e o doleiro Manoel Leal "indicam que a relação não se limitava ao âmbito de cliente e empresa, mas evidenciava possível participação dos citados indivíduos em supostas transações clandestinas a cargo do suposto doleiro, mantendo, assim, verdadeira sociedade entre ambos."

Na decisão que determinou as buscas contra os doleiros e empresários, dentre os quais Felipe Bravo, "a plausível movimentação de recursos oriundos de factorings restou evidenciada na fase inicial das investigações, através da identificação de movimentações em contas ligadas a Manoel Fernandes Leal, que mais tarde foram identificadas como realizadas por preposto de Ewerton Soares da Silva, o qual à época possuía empresa que atuava no seguimento de factoring." Além disso, "ao apurar a relação existente entre Manoel Leal e a empresa GUMFACTORING FOMENTO COMERCIAL, constatou-se, através de diligência de campo, o comparecimento pessoal do investigado à sede da factoring (onde também funciona o escritório da empresa SETTA COMBUSTÍVEIS), no mesmo dia em que chegara dos Estados Unidos da América. Em seguida, o alvo se dirigiu a agência bancária na qual ele e empresas sob o seu controle possuem contas."

Mas não apenas isso. Segundo os investigadores, "os dados obtidos do COAF indicam a realização de transações financeiras atípicas, no período de setembro de 2017 a maio de 2019, entre a empresa "fantasma" LEAL PROSET PLANEJAMENTO PROJEOTS E SERVIÇOS TÉCNICOS EIRELI - ME, controlada por Manoel Fernandes Leal, e a GUNFACTORING FOMENTO COMERCIAL LTDA, que figurou como uma das principais remetentes de recursos (fls. 01 do id. 19957632)."

Na decisão do juiz Cesar Arthur, é possível verificar que "em diálogo extraído das mídias digitais, Manoel Leal indica estar recorrendo a Felipe Bravo, vinculado à GUNFACTORING, visando a obter recursos para seus negócios, em virtude da ausência de Jarbas Guimarães Junior (também investigado), provável parceiro do primeiro, consoante já destacado nas fases pretéritas da 'Operação' (fls. 02/03 do id. 19957632)."

"Em outro diálogo obtido através da medida judicialmente autorizada, Manoel Leal e Jarbas Guimarães falam sobre transações financeiras envolvendo o sócio-proprietário da empresa de fomento mercantil, Geraldo Uchôa (fls. 03 do id. 19957632)", diz a decisão, que ainda acrescenta: "Noutra conversa, o pretenso doleiro e o empresário tratam de nova transação financeira realizada com a factoring, na qual se reportam a Felipe Bravo (fls. 04 do id. 19957632)."

Vale mencionar, ainda, outro trecho da decisão, onde se reporta que "em diálogo com Felipe Bravo, datado de fevereiro de 2020, Ana Maria repassa orientações do seu esposo Manoel Leal, quando instada a realizar operação bancária em sua conta (fls. 04 do id. 19957632)" e que "em conversa com Felipe, Manoel trata de transação financeira a ser realizada por Ana Maria em favor do primeiro, ou da empresa com a qual tem vínculo (fls. 05 do id. 19957632)."

O magistrado ainda aponta que "todas as comunicações de operações realizadas entre factorings e empresas ligadas ao suposto doleiro Manoel, ou a outros operadores financeiros investigados, foram realizadas pelas instituições financeiras com as quais as empresas mantinham contas, não havendo quaisquer referências a avisos de operações atípicas realizadas pelas factorings, apesar de serem obrigadas por lei a comunicar ao COAF transações relevantes." Para as autoridades, diz o juiz federal, "tal fato evidencia possível conluio entre os empresários desse seguimento e os supostos doleiros investigados, bem como o conhecimento da natureza das operações financeiras clandestinas realizadas pelos mesmos."

 

Foto: Reprodução/PJE

A pedido do Delegado Daniel Silvestre, que preside o Inquérito, o juiz ainda deferiu o desmembramento do feito, objetivando a instauração de novo procedimento investigativo, com utilização de elementos carreados aos autos do inquérito policial e do registro especial "para apurar a atuação da pretensa organização criminosa investigada nestes autos a partir do ano de 2018 até os dias atuais, nos exatos termos representados."

 

 

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