OPINIÃO: DIVERSIDADE SEXUAL COMO “DEFEITO”: MARÍLIA ARRAES EM ACENO A RELIGIOSOS FUNDAMENTALISTAS, POR LUCIANO FREITAS FILHO

19 de out. de 2022

/ by Blog da Noelia Brito

 

Durante o debate promovido pela Fiepe em parceria com a CBN, Marília Arraes exibiu, em.diversos momentos, um Terço enrolado na mão.

       Por Luciano Freitas Filho*

Em sabatina recente com a Rede Globo acerca de políticas voltadas para a comunidade LGBTQIA+, a candidata Marília Arraes fez clara referência à orientação sexual como “defeito”, segundo a Arraes

Deus é perfeito, Deus não tem defeitos, só quer o bem da gente. Mas Jesus chegou e ensinou a gente, que a gente precisar amar o próximo como a gente ama a nós mesmos, e esse próximo tem defeitos. Defeitos e qualidades diferentes da nossa. 

Antes da análise da fala propriamente dita, há de se considerar o contexto ou cenário discursivo para que a candidata venha a público com esse texto que evoca, intencional e repetidamente, a “Deus e a Jesus”. Com um aceno visível aos eleitores cristãos, sobretudo aos evangélicos, Marilia Arraes tem, nos últimos meses, circulado em cultos, missas, eventos religiosos, bem como tem se utilizado de indumentárias católicas, como exemplo, o terço usado no debate com a FIEPE, na última 3ª feira, 18/10. 

Confira o trecho da sabatina com Marilia Arraes que tem gerado críticas e questionamentos da comunidade LGBTQA+

Imagens: Rede Globo Nordeste 

Em uma análise en passant, esse movimento político dela por si só seria apenas uma estratégia aceitável, visando votos desse segmento. Contudo, em tempos de grandes investidas fundamentalistas nas políticas de Estado; considerando um momento eleitoral em que ela acusa a candidata adversária de bolsonarista e, assim sendo, fascista – o que incluiria a pecha, também, de homofóbica e, sobretudo, considerando a ausência clara de quaisquer menções ao público LGBT+ no seu Plano de Governo , inclusive até de trechos em que seu plano afirma “combater as desigualdades, especialmente aquelas estruturadas pelo racismo, machismo, e discriminação de classe”, precisamos problematizar seus passos políticos.

Dito isso, demarcando essa posição política da candidata, voltemos à análise do discurso em si, do texto proferido e que não foi editado. Em 15 de abril de 2013, publiquei um texto no Blog do Jamildo, JC Online, em que discorro exatamente sobre esse discurso de amar ao próximo, mesmo em face de seus “defeitos”. O texto, intitulado “Amar ao próximo e abominar a homossexualidade: sobre o amor pela metade”, problematiza um jargão cristão fundamentalista que afirma que homossexuais são defeituosos, pecadores, mas que é preciso amá-lo como irmão/irmã, mas abominar seus defeitos -Na época, destaco, era vice-presidente da ONG Leões do Norte, Secretário Nacional LGBT do PSB e já havia publicado diversos textos no campo acadêmico-científico sobre a questão de gênero e diversidade sexual. Ressalto, igualmente, que estive no passado em diálogo com vários parlamentares da Câmara do Recife e da Assembleia Legislativa de Pernambuco para dialogarmos sobre políticas para esse segmento. Na ocasião, devo afirmar e agradecer a parceria de Daniel Coelho, Priscila Krause, Aline Mariano, Isaltino Nascimento e da própria Marília Arraes. Muitos desses, sobretudo Daniel, Priscila, Isaltino e Aline, receberam diversos prêmios da ONG Leões do Norte e do Fórum LGBT de Pernambuco, considerando a luta parceira com nossa causa. A própria Marília Arraes tinha, também, certo destaque.

Nas Redes Sociais, a declaração da candidata foi recebida com questionamentos e críticas





Entretanto, precisamos pensar sobre e pôr em xeque a Marília Arraes do hoje, dessa candidata com um vice declaradamente bolsonarista. De uma postulante ao governo do Estado de Pernambuco que tem, repetidamente, “esquecido” de falar ou defender os LGBT+ em seus projetos, planos e discursos em sabatinas e debates. Da Marília que tem feito diversos acenos aos grupos religiosos, e, aparentemente, pode estar rifando a causa da diversidade. 

Atualmente, a candidata tem se encurralado em encruzilhadas discursivas, feito vários discursos cheio de remendos, considerando falas que fez no passado e que nessa campanha diz o contrário. Se disse oposição ao governo, perseguida pela família Campos e agora os tem no palanque, inclusive com acordos publicados pela imprensa, para reeleição do primo João em 2024. Critica o apoio do PP à candidatura de Raquel Lyra, sua adversária, mas esquece que Eduardo da Fonte seria candidato a senador em sua chapa, caso não tivesse recuado. Criticou Danilo Cabral por querer exclusividade da imagem do Lula no 1º turno e tenta, inocuamente, exigir exclusividade do Lula no 2º turno. 

Candidata, em suma qual a política real voltada ao segmento por sua campanha?  Existe algum aceno aos evangélicos, sobre a pauta de gênero e diversidade sexual? Aguardemos respostas.

Prezada candidata, com quem já estive aliado por diversos anos, espero que esses acenos não culminem no apagar de políticas para a diversidade. Que a diferença, enquanto elemento que nos iguala na condição de humanos, não seja tratada como defeito. Ao longo da história, a negritude, as pessoas com deficiência também foram encaradas com defeitos a serem corrigidos.


*Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Ex dirigente do PSB. Professor do Instituto Federal da Bahia/IFBA 

 



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